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Condenação dos mandantes da morte de Marielle Franco renova esperanças na democracia, afirma deputada
O dia 25 de fevereiro de 2026 ficará marcado na história do Brasil. O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — respectivamente conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro e ex-deputado federal — a 76 anos de prisão pelos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, ocorridos em 14 de março de 2018. A decisão, tomada por unanimidade, reconheceu o caráter político do crime e sua conexão com as milícias que atuam no estado.
“Para nós, do Psol, foi um dia histórico, foi um dia muito importante. Nós lutamos por justiça durante oito anos e hoje finalmente nós temos a condenação dos mandantes desse crime político brutal que chocou não só o Brasil, mas o mundo. Finalmente conseguimos fazer justiça pela nossa companheira”, declara Paula Coradi, presidenta nacional do Psol no Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato.
Coradi ainda ressaltou a fala do ministro Alexandre de Moraes durante o julgamento. “Ele foi muito feliz quando relacionou a certeza da impunidade pela Marielle ser uma mulher preta, favelada. Hoje foi um dia importante também por esse marco: estamos respondendo à sociedade brasileira que esse tipo de crime não ficará impune.”
Por sua vez, a deputada estadual pelo Psol do Rio de Janeiro e ex-chefe de gabinete de Marielle Franco, Renata Souza, trouxe uma perspectiva mais pessoal. “Ao receber a notícia da condenação, a gente sabe que não vai ter a Marielle e o Anderson de volta, mas a gente sente que, com essa condenação, a gente restabelece a possibilidade de refundar a democracia brasileira. O feminicídio político de Marielle trouxe uma cisão, um corte profundo na democracia brasileira.”
Ela destacou o envolvimento de instituições do Estado no crime. “Os mandantes estavam diretamente ligados à infraestrutura do Estado. Um era membro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro e o outro era deputado federal. Os outros acusados e condenados também eram ex-policiais militares e um delegado da polícia civil. São instituições do Estado brasileiro intrinsecamente ligadas ao assassinato de uma vereadora eleita.”
A deputada estadual também aprofundou a análise sobre a obstrução das investigações no Rio de Janeiro. “A gente viu que, durante muito tempo, não se caminhou com a investigação, caminhava-se em círculos. Foi só quando federalizou as investigações que isso começou a andar. Descobriu-se no curso do processo que a polícia civil, que devia cumprir seu papel, compactua com esse crime.”
Ela lembrou que a delegacia de homicídios do Rio de Janeiro foi chamada por um dos desembargadores de “balcão de negócios”. “Isso demonstra o tamanho do desafio de enfrentar e investigar crimes no estado. O crime foi encomendado para que a investigação não ocorresse. As instituições do estado do Rio de Janeiro não reuniam condições éticas, morais e políticas para investigar de maneira isenta.”
A presidenta nacional do Psol alertou para o crescimento das ameaças contra parlamentares do partido. “Acredito que se dá por conta da violência política de gênero, que tem sido uma das formas que a extrema direita expressar o seu projeto político. Existe uma leitura de que existem pessoas e corpos matáveis no Brasil ainda.”
Coradi citou diversas parlamentares ameaçadas por essa violação política de gênero: Lívia Duarte (PA), Talitha Petroni (SP), Paula Nunes (SP), Júlia Santos (BH), Isa Lourenço (BH), Bella Gonçalves (MG), a própria Renata Souza, e Beni Brioli. “Não é possível que o Estado brasileiro não tome responsabilidade em relação a isso.”
“Para nós é muito frustrante que quando levamos essas denúncias adiante, o poder público tem sido muito pobre na sua resposta. Quando uma parlamentar tem o seu direito de exercer o mandato cerceado, nós estamos cerceando também a democracia brasileira”, criticou.
O legado de Marielle e a luta das mulheres na política
“Marielle virou semente. A luta política que ela carregava, seu legado, foi honrada por muitas pessoas e por muitas lutas. Marielle foi uma pessoa que conseguiu impulsionar muitas mulheres, mulheres negras para a política”, refletiu Coradi.
A presidenta do Psol lamentou que figuras públicas com potencial eleitoral tenham desistido da política por conta da insegurança. “Nós já tivemos casos de figuras públicas nossas de peso eleitoral que poderiam hoje ser deputadas e simplesmente desistiram da política por conta dessa questão da insegurança, de uma política de ódio, de ameaças.”
Sobre as eleições deste ano, Coradi afirmou: “Nós queremos impulsionar candidaturas de mulheres. O que a gente pede é que as nossas companheiras tenham segurança para ocupar o espaço da política sem violência.”
Renata Souza encerrou com uma mensagem sobre o significado da condenação. “Sem dúvida nenhuma, o feminicídio político da Marielle causou uma fissura no Estado Democrático de Direito. Essa condenação dos mandantes renova a nossa esperança de refundação da democracia.”
A leniência das casas legislativas
A presidenta do PSOL também apontou a omissão dos próprios parlamentos. “Existe uma leniência em relação a esses casos também das casas legislativas. A forma como se define quem recebe ou não escolta é diferente em cada casa legislativa. Nós não estamos falando nem das vereadoras que são ameaçadas também, que são muitas.”
Ela lembrou do episódio em que o prefeito Hugo Motta retirou a escolta da deputada Taliria Petrone. “Um absurdo. A certeza que se dá da impunidade a partir do momento que não se investiga esses casos contribui para isso.”
Renata Souza também trouxe seu testemunho pessoal. “Em menos de 10 dias, em janeiro, recebi dois e-mails extremamente violentos me ameaçando de morte, com ameaças de tortura, de estupro. Uma coisa horrorosa. Não recebi só nos meus e-mails institucionais, recebi e-mails pessoais que não estão públicos. Essas pessoas que ameaçam fazem uma investigação prévia e conseguem esses dados pessoais.”
Ela decidiu levar o caso à Polícia Federal. “Tomei a decisão de fazer uma reunião com o dr. Andrei (Rodrigues), porque entendo que essas ameaças precisam ter uma investigação federal. As autoridades do Rio de Janeiro não me prestaram a contento informações sobre as investigações de ameaças anteriores, inclusive uma em que estava grávida e apontaram uma chave de fenda para minha barriga.”
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